CEPAL divulga números sobre a participação dos salários no PIB latino-americano

Roberto Bitencourt da Silva | Publicado originalmente no GGN – o Jornal de Todos os Brasis

A edição de agosto da Revista da Cepal traz um esclarecedor estudo sobre a participação salarial no Produto Interno Bruto de 15 países latino-americanos, entre eles Brasil, Argentina e México, as maiores economias da região (*). A pesquisa publicada pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) foi realizada pelo economista peruano Germán Alarco Tosoni e oferece uma visão abrangente sobre o poder de incidência dos salários na riqueza regional, durante o intervalo de tempo de 1950 a 2011. A participação dos salários no PIB, diga-se, reflete um importante indicador de distribuição da renda. Em que pese a expressiva heterogeneidade da região – marcada por complexas e diversificadas realidades sociais, políticas, culturais e econômicas entre os países – algumas informações são bastante esclarecedoras a respeito dos percursos social e econômico da América Latina, nas últimas décadas, em especial do Brasil. Abaixo destaco e interpreto alguns dados que chamam a atenção:

Entre os anos de 1950 a 1970 são registrados os maiores porcentuais de participação dos salários sobre o PIB regional. Talvez não seja casual que, por um lado, consista no período de fortes mobilizações das organizações sindicais e populares. Por outro, diferentes governos de orientação popular-democrática e com viés economicamente intervencionista ascenderam na região.

Após a crise da dívida externa na década de 1980 e a emergência de governos orientados pelo privatismo neoliberal, entre os anos 1980-90, a região conviveu com intensa retração dos salários.

Quanto ao Brasil, ao mesmo tempo em que demonstra relativa estabilidade na participação dos salários sobre o PIB, os números mais altos apresentam-se durante a virada dos anos 1950-60, com destaque para 1957, em que a fatia salarial sobre o PIB alcançou 48,27%. Não gratuitamente, um intervalo de tempo marcado por maior intervenção dos trabalhadores na cena pública, que se esgotou no golpe de 1964.

Brasil e Argentina, em relativa sintonia, apresentam expressivo refluxo da participação dos salários em dois intervalos de tempo:

a) durante as suas ditaduras civis-militares. Em nosso país, principalmente no final dos anos 1960 e no curso da década de 1970. Na Argentina, na segunda metade dos anos 1970 e primeira da década seguinte;

b) sob a onda do neoliberalismo, na década de 1990 e no início dos anos 2000.

A partir de meados da década de 2000, provavelmente associada à ascensão de governos que guarda(va)m maior interlocução com os trabalhadores (o neoperonismo dos Kirschner e o PT de Lula), a participação salarial sobre a riqueza bruta tendeu a crescer. Configurando, pois, um indicador positivo de redução das disparidades sociais. O México, por sua vez, envolvido há anos em acordos de livre comércio com os EUA e o Canadá (ALCA) e sob o influxo neoliberal mais intenso em seus governos, desde os anos 1980 demonstra números continuamente decrescentes para os salários.

(*) Os países submetidos ao estudo são: Brasil, México, Argentina, Uruguai, Honduras, Equador, Venezuela, Costa Rica, Bolívia, El Salvador, Colômbia, Chile, Panamá, Paraguai e Peru. O estudo encontra-se disponível em: http://www.cepal.org/publicaciones/xml/5/53445/RVE113Alarco.pdf

Roberto Bitencourt da Silva – Dr. em História (UFF), prof. da Faeterj-Rio/Faetec e SME-Rio.

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