O fim do ciclo de ouro do emprego

Julio Gomes de Almeida* | Brasil Econômico

Entre 2004 e 2013 a economia gerou 13,3 milhões de postos, uma média de 1,3 milhões a cada ano. Para se ter uma ideia do seu significado, neste longo ciclo foram gerados em média, por ano, quase o dobro de empregos do período 2000/2003. Esse processo perde força a olhos vistos, embora ainda estejamos longe do extremo oposto do desemprego galopante. Nos doze meses findos em maio último, os empregos formais somaram 665 mil, ou seja, a metade da média do decênio anterior, e 468 mil no corrente ano até maio, ou 12% a menos do que no mesmo período de 2013.

Sem ser dramática, a situação presente acena com o possível fim deste que foi o período de ouro do emprego no país. Não podemos esquecer dos fatores que lhe deram fundamentação: uma ostensiva política de formalização do trabalho e a redistribuição da renda — esta impulsionada pelas políticas de complementação de renda e de valorização do salário mínimo —, numa demonstração de que certas ações de regulação e de política fiscal podem levar a profundas e duradouras mudanças positivas na renda e no emprego.

A nova pesquisa que o IBGE está dando início — a Pnad contínua — mostra que ainda não estamos no “pleno emprego”, mas é patente que nos aproximamos muito mais de um nível de ocupação que do ponto de vista da população e da economia é muito mais favorável do que em épocas anteriores.

O que há de mais duradouro e o que é decorrência de uma passageira retração do nível de atividade é algo a ser esclarecido. Em nosso ponto de vista, uma combinação dos dois componentes está em jogo, o que significa dizer que será possível restaurar o dinamismo anterior, mas não com a mesma magnitude.

A propósito, foi a intensidade muito forte concentrada em um período relativamente curto com que se deu a explosão do emprego o determinante de distorções que até hoje estão presentes, como a mais elevada inflação de serviços e o congestionamento no atendimento das demandas da população. Ou seja, é possível que a trajetória futura do emprego, em sendo mais escalonada, reproduza seus efeitos positivos, poupando a economia de seus resultados adversos.

Na construção civil, que praticamente deixou de gerar empregos novos nos últimos três meses, é possível que esse desempenho corresponda integralmente a uma fase negativa que deverá ser superada. Essa etapa atinge tanto a construção habitacional, quanto a construção pesada. No primeiro caso, os custos elevadíssimos das habitações aumentaram de tal forma seus preços que agora inibem as vendas. O segundo tem como determinante o ritmo apenas modesto com que, por enquanto, evoluem o investimento público e os projetos de concessão. São fatores que poderão ser amenizados ou neutralizados.

Em serviços e no comércio, onde também o dinamismo anterior foi amortecido, sobretudo nesse último caso, o menor crescimento do PIB e do consumo foram fatores decisivos. Uma modernização dos serviços, aqui entendida como uma mais profunda capitalização do setor e melhor qualificação e treinamento da mão de obra, deverá abrir oportunidades de empregos melhor remunerados, acompanhada, porém, de menor geração de empregos.

É na indústria que as mudanças estruturais devem prevalecer, o que equivale a afirmar que, mesmo diante de uma recuperação econômica, pode ser que o emprego industrial reaja apenas muito timidamente. Convém sublinhar que nos últimos doze meses encerrados em maio foram cancelados no setor 11 mil postos de trabalho. É provável que já esteja ocorrendo na indústria um processo de atualização de maquinário e automação, com objetivo de melhorar a competitividade industrial muito enfraquecida ao longo dos últimos anos pela valorização da moeda e perda de produtividade, processos estes que coincidiram com as elevações de custos, como a do próprio trabalho.

Diante disso, a manufatura, que perfilou junto com os demais setores acima como protagonista na criação de empregos no último decênio, poderá passar a integrar o rol de setores de pouca expressão do ponto de vista da criação de empregos formais, como extrativa mineral, serviços industriais de utilidade pública e agropecuária. Assim, em um novo ciclo a dependência de serviços como polo empregador será ainda mais profunda.

* – Julio Gomes de Almeida é profesor do Instituto de Economia da Unicamp e membro da Plataforma Política Social.

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