Unir os brasileiros

Roberto Saturnino Braga*

Em debate esta semana no Casa Grande, após a intervenção de Vivaldo Barbosa caracterizando a última eleição presidencial como um episódio típico de luta de classes, João Pedro Stédile lembrou que Lula havia conseguido unir essas classes em apoio ao seu governo, isolando a oposição e vencendo com relativa facilidade as eleições do seu segundo mandato e a da sua sucessora Dilma Rousseff, apesar de toda a enorme onda negativa da mídia ao redor do chamado mensalão.

Muito bem lembrado, o fato exalta a competência política de Lula e nos leva a indagar as razões pelas quais esta unidade se desfez e, pior ainda, a vasta coligação política de Lula se desmantelou e a oposição conseguiu o apoio de vários grupos importantes tradicionalmente ligados à esquerda (por exemplo, o PSB).

Uma das razões seria a falta de vocação política da Presidente, que se voltou inteiramente para as questões técnicas e descuidou do diálogo com a sociedade. Outra seria a voracidade do PT no aparelhamento do Governo, que criou uma reação antipetista muito forte. Pessoalmente, reconheço que são razões efetivas; acho-as, entretanto, insuficientes para explicar todo um desmoronamento político das forças de apoio, tão grande a ponto de quase a Presidente perder a reeleição. Acho que uma força maior atuou subterrânea e eficazmente, invisivelmente, na montagem do tempestuoso clima anti-PT e anti-Dilma.

Pode ser que eu esteja vendo fantasmas, isso acontece. Mas é bom ressaltar dois fatos relevantíssimos ocorridos na gestão Dilma que podem ter ligação com este fantasma: a mudança na legislação de exploração do petróleo que deu à Petrobras o monopólio da operação nos campos do pré-sal, e a aliança do Brasil com os BRICS, com a criação do Banco de desenvolvimento e do FMI, alternativos aos de Breton Woods comandados pelos Estados Unidos. Uma afronta, realmente, ao dono do antigo quintal.

Se o fantasma a que me refiro for real, é certo que terá havido uma ligação entre a sua aparição na última eleição e a inédita ousadia brasileira materializada nos fatos relevantes mencionados. Importa considerar, ainda, que a presença e a ação militar dos americanos no Oriente Médio não é eficaz nem futurosa, e deve preocupar muito seus dirigentes políticos a questão do abastecimento de petróleo em futuro médio. A alternativa natural estaria na América dói Sul, na Venezuela e no Brasil. E justamente estes dois países parecem estar escapando à sua tradicional condição de quintal norteamericano. Então, tudo isso pode estar interligado, e convém ficar muito atento para esta perigosa possibilidade.

Enfim, quero dizer, e o disse lá no Casa Grande: pelo sim e pelo não, é melhor cuidar de unir os brasileiros, e a Presidente pareceu querer dizer isto ao convocar todos ao diálogo, no seu primeiro pronunciamento após a reeleição. Não é hora de “peitar” a oposição, convocar a esquerda e ir para as ruas chamar o povo para enfrentar esta luta de classes (é tudo o que a CIA quer), mas de buscar o diálogo com vistas à união dos brasileiros, com disposição às concessões necessárias. Ajudar a Presidente a fazer o que Lula fez no seu primeiro mandato me parece a melhor missão para o PT neste momento.

É a minha opinião; de quem já viu este fantasma atuar em 64, quando tudo que o governo fazia parecia dar errado e ninguém sabia por quê, e ninguém se entendia. Deus nos livre dessa desavença novamente É fundamental que os brasileiros se entendam e de unam, dialoguem e busquem acordos mínimos, essenciais. Possíveis.

 

Roberto Saturnino Braga (Foi deputado federal, prefeito e vereador da cidade do Rio de Janeiro e senador da República.
Atualmente é Diretor-Presidente do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento).

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